Há algumas semanas, escrevi uma matéria sobre o comportamento sexual das gerações ao longo dos últimos anos. O uso do termo “homossexualismo”, entretanto, foi bastante criticado por alguns defensores do movimento LGBT por se tratar, segundo eles, de uma propagação do preconceito. Achei que agora seria uma boa hora de me defender.

De fato, a palavra “homossexualismo” foi cunhada no final do século 19 para se referir à “patologia”. Demorou muito anos, mas em 1990 a Organização Mundial da Saúde retirou o “homossexualismo” da lista de distúrbios mentais. Por conta dessa mudança, muitos ativistas adotaram que o uso da palavra com o sufixo ISMO denotaria doença – e, com isso, uma forma de propagar o preconceito. O politicamente correto, de 1990 pra cá, seria “homossexualidade”.

Apenas em 1990 a OMS desclassificou o comportamento homossexual como doença

Significados no dicionário

O dicionário Houaiss, um dos mais completos sobre a língua portuguesa, define cada uma dos termos da seguinte maneira:

  • Homossexualismo: a prática de relação amorosa e/ou sexual entre indivíduos do mesmo sexo.
  • Homossexualidade: condição de homossexual; homossexualismo.

Ou seja, a diferença, do meu ponto de vista, é muito mais política do que gramatical. Na prática, as duas palavras são sinônimas e significam a mesmíssima coisa. Além disso, o sufixo ISMO tem diferentes aplicações e associá-lo apenas a “doença” também demonstra falta de informação – e, vá lá, preconceito linguístico.

Na prática, os termos homossexualismo e homossexualidade são sinônimos

Aplicações do sufixo ISMO

  • Fenômeno linguístico: qualquer palavra escrita ou falada que não siga a norma culta. O rotacismo, por exemplo, se refere a quem troca o “r” pelo “l” na escrita ou na fala, como em “célebro” ao invés de “cérebro”.
  • Sistema político: se refere à forma de governo predominante em um Estado. São exemplos o parlamentarismo, o presidencialismo, o absolutismo e o militarismo.
  • Religião: a palavra pega a característica de uma religião em questão para nomear uma ordem. Como exemplo, os seguidores de Cristo, que fazem parte do cristianismo, ou os que veneram Buda, no budismo.
  • Doença: se refere a doenças baseada no comportamento, como bruxismo, alcoolismo e tabagismo.
  • Esporte: diversas modalidades esportivas carregam o sufixo, como o ciclismo e o atletismo.
  • Ideologia: algumas palavras com esse sufixo são referente a processos ideológicos, como o caso do mercantilismo, romantismo, anarquismo, machismo e feminismo.

Tudo é uma questão de linguagem

E o homossexualismo?

Se levarmos em consideração que ao ser cunhada a palavra “homossexualismo” se referia a doença, ela realmente não deveria mais ser usada. Porém, com o passar dos anos ela foi muito mais associada a um processo ideológico do que a uma patologia – até mesmo pelo fato de que ser homossexual não é uma doença.

Entretanto, penso eu, que o preconceito não está na palavra. Ele está na cabeça de cada pessoa. Já vi casos de gente que não é nem um pouco preconceituosa, mas que ainda usa “homossexualismo” sem saber que um dia ela se referia à “doença gay”. Assim como já vi militantes corrigindo para “homossexualidade” sem nem saber por que está fazendo isso.

Livro espanhol promete curar a "homossexualidade"

É comum, inclusive, ver pessoas que pregam a cura da “homossexualidade”. Mas opa, a doença não era só com o ISMO? Aí é que está, caros leitores: quem considera a prática homossexual como doença, a meu ver, continuará fazendo isso independente do sufixo utilizado nela. É preciso analisar todo o contexto antes de acusar apenas uma palavra.

Enquanto o preconceito existir na cabeça das pessoas, não adianta mudar a grafia de nada. Mas caso eu tenha ofendido alguém pelo uso de “homossexualismo”, me desculpe, não era essa a intenção. Entretanto, a discussão de preconceito é sempre válida e espero que todos entendam que o “preconceito” em si é que é uma doença – homossexualismo ou homossexualidade não são.

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Atenção: este é um artigo de opinião pessoal e não reflete necessariamente o posicionamento do site Em Resumo.